• Vânia Penha-Lopes

A RACIALIZAÇÃO DO ESPAÇO: O CASO DOS SHOPPINGS

Updated: Nov 8, 2020



Publiquei esta crônica há mais de dez anos, no site da Afropress, quando estava fazendo pós-doutorado sobre a primeira turma de formandos cotistas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Desde então, mais negros ascenderam à classe média e o trabalho doméstico foi regularizado com a "PEC da Doméstica" em 2015. Embora continue a ser um emprego mal remunerado, pelo menos a partir de então as empregadas têm direitos trabalhistas básicos.


Em 2020, as empregadas domésticas se encontram novamente numa posição vulnerável. Com a pandemia, muitas foram dispensadas por suas empregadoras devido à necessidade de isolamento social. Ao mesmo tempo, muitas outras continuam a trabalhar, arriscando sua saúde e a de seus familiares. Como prova, sabe-se que o primeiro caso de contaminação no Rio de Janeiro foi o de uma empregada doméstica que pegou o vírus da patroa recém-chegada da Europa; a empregada morreu.


Com a pandemia, empregadas domésticas que continuam a trabalhar podem não ter com quem deixar os filhos menores. As consequências, como o que ocorreu em Pernambuco em 2 de junho, podem ser letais. Miguel, o filho de cinco anos de Mirtes Renata de Souza, uma empregada doméstica, morreu ao cair do prédio onde sua mãe trabalhava. Mirtes se ausentou para levar à rua a cachorra da patroa, Sarí Corte Real, enquanto essa fazia as unhas. Sentindo falta da mãe, Miguel começou a chorar. A patroa não só não conteve Miguel com ela, mas levou-o até o elevador, deixando-o sozinho para ir em busca de sua mãe. No Brasil, é contra a lei uma criança andar de elevador desacompanhada, mas a patroa pagou R$20.000,00 de fiança e foi solta após ter sido presa em flagrante. A dor de Mirtes foi palpável quando desabafou: "Ela não teve a coragem de segurar a mão do meu filho e tirar ele ali de dentro". E completou, retoricamente: "E se tivesse sido o contrário?"


A tragédia repercutiu nacionalmente em meio a discussões e manifestações antirracistas que foram provocadas pelo linchamento de George Floyd, um negro, por um policial branco nos EUA em 25 de maio. A morte do Miguel trouxe à baila a questão de quanto vale uma vida negra no Brasil e quanto avançamos para além da escravidão. Em vista disso, publico abaixo a versão original de uma reflexão minha sobre as delimitações que a raça e a classe impõem a espaços, focando nas babás num shopping do Rio.

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A sociologia nos ensina que os espaços não são neutros; assim como a raça ou a cor são atribuídas às pessoas, aos grupos e às organizações sociais, os espaços que ocupamos também são racializados. Quer dizer, ou eles são projetados com a intenção de servirem a certas camadas da população ou uma certa população faz maior uso deles e acaba atribuindo a eles uma certa raça ou cor.


Os shoppings centers—ou “shoppings”, como os brasileiros os chamam—são exemplos de espaços racializados. Isso acontece devido à interseção de classe social com raça. Através de suas localizações e das lojas que congregam, os shoppings comunicam à população que nível de poder aquisitivo é ali bem-vindo. No Brasil, mais até do que em outros países, o poder aquisitivo está tão ligado à cor que muitos continuam batendo na mesma surrada tecla de que o problema do Brasil não é racial, mas econômico (como se fosse impossível ser os dois). Quanto mais alto o poder aquisitivo da clientela de um shopping, mais clara ela tende a ser.


Tal é o caso de vários shoppings brasileiros. Centenas de lojas dispõem de produtos exclusivos como, por exemplo, roupas de grifes internacionais e tênis que custam R$800 o par. Está bem claro que o objetivo desses shoppings é atender a moradores de áreas tão economicamente privilegiadas que o seu índice de desenvolvimento humano (IDH) se equivale aos dos países escandinavos (enquanto que partes da Baixada Fluminense, por exemplo, têm IDH tão baixos quanto os de alguns países africanos). E se a clientela dos shoppings não se parece exatamente com a imagem loura dos escandinavos, pelo menos brancos brasileiros a grande maioria é. Em sua maioria, são famílias, muitas delas acompanhadas de crianças pequenas.


Isso tudo já é de se esperar. Porém, quando, levada por amigos, visitei um certo shopping localizado no extremo sul da cidade do Rio de Janeiro num dia chuvoso deste ano, o que espantou o meu olhar antropológico foi a cor do séquito das compradoras. Em contraste com as compradoras—morenas de cabelos compridos, em excelente forma física, vestidas de camiseta, jeans e sandálias de salto plataforma—vinham atrás delas mocinhas: todas mulatas, todas vestidas de branco até os pés, todas de tênis (que, tenho certeza, não custaram R$800), todas carregando as bolsas de compras além de correrem atrás das crianças. Insisto no termo “mulata” porque nenhuma das babás tinha a pele muito escura e nenhuma era branca. Por que o “uniforme” branco?


Ocorreu-me que aquela padronização não fazia sentido, visto que as babás ali se encontravam para cuidar das crianças. Como as babás mantinham contato físico com as crianças, elas constantemente se arriscavam a sujar seus uniformes de doce, chocolate, refresco, ou coisa pior. Ou seja, aqueles uniformes, por serem brancos, não eram nada práticos. Mas eles serviam para demarcar o espaço racial das babás, para indiferenciá-las num coletivo de servidão. Os uniformes as tornavam simultaneamente invisíveis (posto que indiferenciáveis) e, paradoxalmente, altamente visíveis como não-brancas pobres ocupando temporariamente um espaço reservado para brancos de posse.


Aquelas repetitivas imagens me trouxeram à mente as pinturas pré-abolicionistas de Rugendas e Debret, em que famílias abastadas passeavam pelo Rio acompanhadas de suas mucamas. Naquela época, a parte chique da cidade era o Centro; o esplendor da Zona Sul permaneceria desconhecido da maioria da população durante um bom tempo. Não quero com isso negar o fim da escravidão nem tampouco igualar a situação das babás com a das mucamas. Também não pretendo insinuar que o shopping proíbe os negros de freqüentá-lo; afinal de contas, ninguém barrou minha entrada nem impediu que eu transitasse livremente pelas lojas. Sugiro, porém, que a cidade continua a ser racialmente demarcada. Alguns espaços são de fato abertos a não-brancos somente se eles os ocuparem numa posição de desigualdade. O shopping é uma ilustração do fato que, tantos anos após a abolição da escravatura, a maioria dos negros brasileiros ainda não alcançou as condições necessárias para se integrarem completamente à sociedade brasileira como iguais. Aliada a isso é a alta desigualdade econômica que caracteriza o Brasil. A distribuição de renda do Brasil é tal que a maioria da população é pobre, a classe média é pequena e a classe alta, ínfima. E aí vem a interseção de classe com cor: enquanto que a classe alta é quase totalmente branca, a classe mais baixa não é completamente negra; o Brasil não é a África do Sul. Desse modo, tenho certeza de que os brancos pobres também se sentem intimidados pelos espaços economicamente privilegiados.


Historicamente, o Brasil admitiu a existência de suas profundas desigualdades econômicas, sem por isso muito fazer para diminuí-las. Com a implementação das políticas de ação afirmativa, o Brasil passou a reconhecer a presença insidiosa das desigualdades raciais ou de cor e também a tentar combater as antigas desigualdades econômicas. Aqueles que carregam a bandeira de que o Brasil não é racista insistem em reduzir todas as nossas desigualdades sociais à distribuição injusta do vil metal. No entanto, qualquer passadinha num shopping mais abastado demonstra que a raça, ou cor, e o poder aquisitivo andam de mãos dadas pelo Brasil afora.


Originalmente publicado em www.afropress.com em 28 de novembro de 2007.


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