• Vânia Penha-Lopes

Berlim, Quinta-feira, 19 de Julho às 18:22 (horário de Berlim: Sexta-feira, 20 de julho à 1:22h)

Acabamos de jantar num restaurante tailandês aqui pertinho. Não comia dessa culinária desde o fim de maio e estava sentindo falta.


Estamos hospedados na Alemanha Oriental. A cidade tem um clima, vamos dizer, inusitado. Os resquícios da dominação soviética são visíveis em alguns prédios e no cinzento que paira sobre a cidade, em meio a construções moderníssimas que surgiram após a queda do Muro de Berlim.


A recepcionista do hotel nos recomendou almoçar na Gendarmenmarket Platz, uma praça antiga que foi totalmente reconstruída. Almoçamos num restaurante italiano, Malatesta, onde os garçons falavam com a gente em italiano. Comi um risoto de frutos do mar, vinho rosé italiano e, de sobremesa, sorvete de avelas com morangos frescos e calda de morangos. Um escândalo!


De lá, pegamos um ônibus pra fazer um tour da cidade. Embora o motorista fosse simpático, o guia era grosseiro e insuportável. Imaginem que me dirigi a ele enquanto o ônibus estava parado, com a pergunta: "Senhor, poderia me dizer o nome desta praça?" A resposta dele foi me falar pra não falar. Depois ele mandou um casal parar de falar. Acho que ele era neto do Stalin ou então acha que vai reinstituir o regime totalitarista. Isso sem contar que o inglês dele era péssimo e se entendia muito pouco do que ele rosnava. Descemos na altura da Torre de Brandenburgo e não voltamos mais pro ônibus.


Essa torre é tipo um Arco do Triunfo, mas muito menos elaborada. A arquitetura de Berlin é muito menos rebuscada que a de Paris e a de Viena. Em ambas as cidades, veem-se prédios que parecem verdadeiros bolos confeitados. Aqui, há muito cinzento e ângulos agudos.


De lá, andamos até o Monumento ao Holocausto, que ficava ali pertinho. Não gostei. O texto dizia que o projeto foi cercado de controvérsia, em parte porque o local escolhido foi a antiga sede de um ministério do Terceiro Reich, em parte porque, como o motorista de táxi havia nos falado, o projeto foi superfaturado em sete vezes mais que o previsto, em parte porque muitos não gostaram da versão final. Incluo-me nesse último grupo. O memorial é feio: uma área enorme coberta por blocos de concreto sem nada escrito. Entendo a intenção do arquiteto: enfatizar a aniquilação sem nomes, sem identidade, sem exceção. Só que os mortos tinham identidades pros seus entes queridos, pra eles mesmos, pro estado. Deveria haver alguma alusão estética a algum símbolo judeu, a alguma coisa que marcasse a presença das vitimas, enfim, algo que celebrasse as vidas que se perderam. Ficou feio, repito.


Em frente a esse memorial, há o Monumento aos Homossexuais num lindo parque. Achei importante visitá-lo, pois não sei de nenhum outro e é preciso que se lembre que os gays também foram perseguidos, castrados e dizimados (os ciganos e os comunistas também o foram, mas não sei de nenhuma homenagem a eles). Os arquitetos dos dois projetos são diferentes, mas a pobreza das suas criações, igual. O monumento aos gays também consiste numa estrutura feia pra caramba, de concreto, com um projetor dentro que mostra um filme de gays e de lésbicas se beijando, um ato de amor e paixão que se tornou crime na Alemanha em 1935. Novamente, a ideia é boa, mas a estrutura parece um daqueles brinquedos de criança, um projetor feito de papelão. Feio!


Daí foi um pulo pra Potsdamer Platz. O que há de tao importante lá? Nada menos que os resquícios do Muro de Berlim. Podemos ver a linha divisória da cidade no chão, bem como o "corredor da morte". nte, lembro crescendo com a história horrorosa do muro, de como famílias foram separadas e gente foi eletrocutada ou fuzilada tentando pulá-lo, e também lembro de quando o muro foi derrubado. Então, a visão do muro foi a constatação de uma significante história viva pra mim, ou seja, algo que ocorreu na minha própria vida em vez de existir apenas nos livros. E a sensação de que Berlim tem um ar pesado me voltou. Não sei explicar direito com palavra, mas é uma sensação forte.


Independente disso, vale dizer que a praça se tornou a área mais valorizada da Europa após a queda do muro. Arranha-céus (que expressão antiga!) e grandes negócios coexistem com uma grande estacão de metro, muitas lojas e mais turistas ainda.


´tá bom pra um dia? Amanha tem mais. Estamos animados porque as exposições que queremos ver estão localizadas aqui pertinho do hotel, de modo que andaremos menos amanha. Estamos cansados!


Boa noite e até amanha!

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