• Vânia Penha-Lopes

JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS: UM DE NÓS



Na Corte do Rio de Janeiro, há 181 anos, nascia Joaquim Maria Machado de Assis, o maior escritor da Língua Portuguesa (e olhem que eu adoro o Eça de Queiroz!). Três anos atrás, o Google me lembrou disso ao ilustrar sua página com uma caricatura dele.


As duas fotografias do romancista, contista e poeta estão aqui de propósito. Não se trata de uma tentativa minha de imitar o falecido Andy Warhol, com seus quadros multiplicados, nem de seguir a prática recente de modificar imagens através de aplicativos. A primeira foto de Machado de Assis corresponde à imagem dele com a qual crescemos: um homem branco ou quase branco. A segunda foto, segundo pesquisas mais recentes, retrata Machado de Assis como ele era: um homem negro.


A obra de Machado de Assis era obrigatória no antigo primeiro grau. Meu livro favorito era e é Contos Fluminenses, histórias super cativantes em que ele relatou com mínimos detalhes os humores, os pensamentos e o comportamento de cariocas do século XIX. A cidade era também personagem importante nos contos dele. Até hoje, é necessário conhecer sua produção literária a fim de se aprender a escrever bem e a apreciar uma excelente escrita. Embora soubesse que Machado de Assis era filho de uma portuguesa branca com um negro brasileiro, nunca me foi dito que ele lembrava seu pai na cor da pele.


Anos depois, já na faculdade de ciências sociais, aprendi que uma grande preocupação da elite da Primeira República (1889-1930) era diluir o "sangue" africano que corria solto pelas veias do povo, inclusive da própria elite. Envergonhados com a declaração de Arthur de Gobineau, que vaticinara em meados do século XIX que o Brasil estava fadado ao fracasso por ser tão negro e tão racialmente misturado, e enamorados da ideologia eugenista da virada do século que alegava ser o negro inferior ao branco, políticos e intelectuais da época procuravam uma solução para o "problema nacional".


Na virada do século, já era óbvio que os brasileiros de ascendência africana haviam não só construído o país com seu trabalho braçal não remunerado, mas também tinham fincado a base da cultura brasileira, seja na música popular e clássica, na arquitetura, na engenharia, na escultura e na literatura. Porém, como admiti-lo, se a "ciência" pontificava que os negros eram incapazes de produzir conteúdo intelectual e artístico de qualidade? Para esconder esse complexo de inferioridade, foram-se embranquecendo os retratos de brasileiros ilustres que hoje seriam chamados de afro-descendentes, clareando sua pele e modificando seus traços "negróides". Machado de Assis (1839-1908), fundador da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente, foi um exemplo; Mário de Andrade (1893-1945), um dos expoentes do modernismo brasileiro, foi outro. Só neste século começaram a aparecer retratos mais realistas desses grandes autores.


Quando eu fazia mestrado em antropologia na Universidade de Nova Iorque, tive uma colega judia que uma vez me disse que ver televisão com a avó era uma oportunidade de reafirmação de sua etnia. Segundo ela, sua avó sempre apontava para a televisão quando um(a) artista judeu/judia aparecia na tela e proferia: "Ele (ou ela) é um(a) de nós!" Considerando-se que essa história tem mais de três décadas, a afirmação da avó da minha colega era significativa porque, até a década de 1960, era costumeiro os judeus adotarem nomes aparentemente ingleses a fim de escapar do antissemitismo. Assim, Lee J. Cobb (Lee Jacob) era um deles; Edward G. Robinson (Emanuel Goldenberg) era um deles; Lauren Bacall (Bette Perske) era uma delas; June Allyson (Ella Geisman) era uma delas; Danny Kaye (David Kaminsky), Tony Curtis (Bernie Schwartz), Zsa Zsa Gabor (Sara Gabor), Kirk Douglas (Issur Danielovich), Cyd Charisse (Tula Finklea), Charles Bronson (Charles Bushinsky) e tantos e tantas outras faziam parte do grupo, mesmo que os gentios não o soubessem.


A sensação de pertencimento reforça os laços de um grupo e aumenta a auto-estima do(a)s que o integram. Por isso, o resgate do retrato de Machado de Assis me faz pensar como a avó da minha colega: ele é um de nós.


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