• Vânia Penha-Lopes

VALDIR ESPINOSA (1947-2020)



Meu coração botafoguense está de luto. Ontem, 27 de fevereiro, foi-se Valdir Espinosa – jogador e técnico de renome – vitimado por complicações daquela maldita doença.


Quando, há coisa de duas semanas, os jornais anunciaram que ele tinha ido se despedir dos jogadores antes de se submeter a uma séria cirurgia no abdômen, pensei em câncer no pâncreas, sempre tão letal. Ontem, a imprensa divulgou que um câncer no intestino havia sido detectado em dezembro do ano passado. Valdir Espinosa foi operado, mas acabou morrendo de pneumonia.


Deu uma tristeza danada. Valdir Espinosa era unanimidade. Em “Os Donos da Bola” de ontem, o comentarista Eraldo Leite afirmou que todo mundo gostava do Valdir Espinosa, figura simpaticíssima que era. Ele também lembrou a última entrevista que Espinosa lhe havia concedido no seu programa na Rádio Globo, o qual ele esperava que fosse reprisado ontem à noite. Eraldo sugeriu que parecia um presságio, pois Espinosa havia feito um relato de todo o seu histórico no futebol, um histórico de campeão.


Valdir Espinosa comandou o Grêmio na conquista de Campeão Mundial de Clubes em 1983. Na carreira de qualquer técnico, isso é um feito raro e grandioso. Porém, pra nós botafoguenses, o grande êxito do grande técnico foi ter liderado o time (“o plantel”, como dizia o saudoso comentarista alvinegro Luiz Mendes) que finalmente acabou com o nosso jejum de 21 anos sem títulos. Botafogo Campeão Carioca de 1989, invicto, no dia 21 de junho, quando a temperatura no Maraca era 21 graus, com gol de Maurício, camisa 7, após precioso passe de Mazolinha, camisa 14 (7 + 14=21) aos 12 minutos do segundo tempo (12 é 21 ao contrário). Pra completar nossa felicidade, a vitória foi em cima do Flamengo, nosso maior rival. Ficou famosa a declaração do Espinosa sobre ter ficado realmente feliz depois de ver o placar todo iluminado: BOTAFOGO, CAMPEÃO CARIOCA 1989.


Eu já morava nos EUA quando fomos campeões. Na semana anterior, minha mãe (que também é botafoguense) havia me telefonado pra dizer que parecia que dessa vez a gente ia ganhar. Em 1989 não havia como assistir ao jogo; acho que nem como ouvi-lo pelo rádio. Só sei que a Mamãe me ligou naquela quarta-feira pra me avisar do nosso êxito. E então, eu, que carreguei minha camisa do clube quando me mudei pros EUA seis anos antes, caso fôssemos campeões, pude finalmente vesti-la pela primeira vez. Éramos só eu, minha camisa e uma bandeirinha com a imagem do Pato Donald. Mais tarde, chegaria a fita de vídeo do jogo e a comemoração subsequente, que a minha irmã (que é vascaína) tinha gravado pra mim: os geraldinos e arquibaldos rindo e chorando, os botafoguenses ilustres (p. ex., Emilinha Borba, Beth Carvalho), as bolas pretas e brancas subindo pro céu. E eu chorei muito, muito, assistindo a tudo aquilo e lamentando a minha ausência da minha cidade num momento tão crucial.


Por isso, quando o Botafogo anunciou a comemoração dos 30 anos do título, em 21 de junho de 2019, fiz questão de ir. Levei comigo aquela minha primeira camisa e vesti a minha última, a vigésima-terceira da minha coleção. Chegando a General Severiano, recebi um pôster do time campeão, tirei fotos da taça e esperei a chegada do time. Paulinho Criciúma, que se encontrava no Sul, foi representado pelo irmão. Mendonça, que estava doente, também não compareceu, mas nós gritamos seu nome assim mesmo; infelizmente, ele viria a falecer pouco tempo depois. Houve discursos, o canto do hino do clube e muitas fotos. Nesse ínterim, o jogo passava no telão, com direito a comentários de João Saldanha, outro grande botafoguense. Fiquei arrepiada ao ouvir a sua voz pausada e vibrei muito com as imagens.


Por fim, era a vez dos autógrafos. Entrei na fila e esperava pacientemente quando um funcionário do clube me perguntou se eu era sócia-torcedora. Ante a minha resposta positiva, ele me levou a uma outra fila, muito menor, destinada a nós; “membership has its privileges”.


O primeiro dos campeões a nos saudar foi o próprio Valdir Espinosa. Muito simpático, ele me agradeceu pela presença. Repliquei que eu é que agradecia a ele! Pedi-lhe pra autografar minha camisa, de malha de algodão, sem nenhum logotipo, que ele chamou de “clássica”. Rapidamente lhe contei como tinha sido um presente de aniversário em 1976. O Botafogo do Nilson Dias e outros feras foi campeão do segundo turno, o que me deu esperanças de ganharmos o campeonato todo. Prometi a mim mesma que só vestiria a camisa quando isso acontecesse. Tive que esperar 13 anos (outro número significativo pra nós), mas consegui, graças ao time que ele dirigiu. Ele abriu um sorriso largo e sorriu com os brilhantes olhos azuis também. Ele e todos os jogadores assinaram a minha camisa e eu tirei foto com todos.


Valdir Espinosa voltou ao Fogão no ano passado pra fazer parte da gerência. Ele estava animado em voltar à casa. Neste ano, com a volta do Paulo Autuori, que comandou o Campeão Brasileiro de 1995, tive a esperança renovada que construiríamos um futuro glorioso.


Hoje em dia, viver muito além dos 72 anos é cada vez mais comum, ainda mais quando a pessoa se mantém cheia de entusiasmo pelo que faz, que era justamente o caso do Valdir Espinosa. Infelizmente, o destino não o quis. A notícia da sua morte nos pegou de surpresa e nos encheu de tristeza.


Costuma-se dizer, jocosamente, que botafoguense vive de passado. Pois eu sou uma botafoguense grata por, num passado recente, ter tido o prazer e a honra de, ainda que por alguns instantes, interagir com um verdadeiro campeão que tanta alegria nos deu.





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