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  • Writer's pictureVânia Penha-Lopes

DEZ ANOS SEM O PAPAI (1924-2013)



"Eu sou pequenininha,

do tamanho de um botão

Levo o Papai no bolso

e a Mamãe no coração


O bolso estava furado,

o Papai caiu no chão.

A Mamãe, que é mais querida,

ficou no meu coração"


Quando eu era pequena, era comum nós crianças recitarmos versinhos pros adultos. Eu odiava o versinho acima, a ponto de chorar quando o recitava. Não achava justo o pai ser relegado a um bolso furado e cair -- talvez até se machucar. Por que o Papai não podia ficar no coração, junto com a Mamãe? Pois o meu ia ficar sim, sempre.


Sempre tive um ótimo relacionamento com o Papai. Órfão de pai aos seis aninhos, ele se revelou um pai super presente e divertido. Na infância, ele me consolava quando minhas alergias não me permitiam participar das brincadeiras na terra com a minha irmã e os meus primos e nem comer chocolate na Páscoa. Na pré-adolescência, ele apontava os diversos instrumentos musicais quando escutávamos músicas no rádio e também traduzia as letras em inglês. Na minha vida adulta, eu já morando nos EUA, a gente assistia aos jogos de futebol juntos na TV quando eu voltava ao Brasil. Aliás, as pessoas desapercebidas da capacidade de evitarem frases feitas sempre se surpreendiam quando me viam no Rio e perguntavam retoricamente: "Ah, veio ver a Mamãe, né?" E eu sempre retrucava, "E o Papai, né? Eu tenho pai!" Ou seja, a negligência à presença do pai continuava a me revoltar. Não foi coincidência eu ter escolhido como tema da minha tese de doutorado a participação dos pais afro-americanos na criação dos seus filhos.


Os cabelos do Papai nunca ficaram completamente brancos e a sua voz nunca mudou; ele continuou divertido, na dele e extremamente magnético. Por isso, levou meses após a sua morte aos 88 anos pra eu me dar conta que o Papai era idoso, bem idoso. Posso dizer que tive mais sorte do que ele, já que me tornei órfã de pai numa idade muito mais avançada.


Hoje, 10 de setembro de 2023, faz dez anos que o Papai morreu. Embora eu esteja aqui escrevendo sem me debulhar em lágrimas, continuo sentindo muito a falta dele. Ele faz falta quando assisto a um jogo, quando como uma comida gostosa, quando vejo uma situação engraçada, quando chego da academia e de uma caminhada; enfim, ele faz falta diuturnamente. Ao mesmo tempo, tenho consciência de que, como "filhota" dele, ele literalmente faz parte de mim. E assim eu sigo, aquecendo meu coração com as minhas lembranças, no meu coração, onde o Papai sempre ficará guardado.

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