• Vânia Penha-Lopes

DIA DAS MÃES

Updated: May 12, 2020



O que dizer da mulher que me botou no mundo? Essencialmente, que ela nasceu pra ser mãe, pois, além de ter se sacrificado pra dar a melhor vida possível pra Dilma e pra mim dentro das suas posses, também atrai uma quantidade de gente que quer fazer dela sua mãe também. Essa pessoas podem pensar o que quiserem, mas ela é só minha e da Dilma.


Cresci com a Mamãe sempre trabalhando fora: primeiro, como professora de artes culinárias e depois, como assistente social, em que ela se formou nos anos 40, numa época em que a maioria das brasileiras nem estudavam, muito menos as negras. Ter uma mãe que cozinhava maravilhosamente se traduzia, entre outros quitutes, em ovos de Páscoa feitos em casa (ela também dava aula pras vizinhas) e bolos de aniversário temáticos e deliciosos. Retenho a lembrança do bolo que ela fez pro meu aniversário de talvez quatro ou cinco anos: um arraial, com vários casais de bichinhos vestidos de caipiras, com direito a fogueira e bandeirinhas (meu aniversário é na véspera de São Pedro). Como a Mamãe trabalhava durante o dia, restava-lhe fazer os bolos durante a noite. Lembro que acordei e vi a Mamãe frustrada porque a cerca do arraial—feita de açúcar e suco de limão, pois sempre odiei glacê de manteiga—estava custando a ficar em pé. Me deu uma pena dela! Ela insistiu e o bolo ficou lindo e gostoso. Detalhe: ela fazia um bolo pra levar pro jardim de infância e outro pra nossa festa em casa, que tinha também pé-de-moleque, cocada branca, cocada preta, paçoca, doce de abacaxi com coco, doce de abóbora, doce de batata doce com chocolate, além, é claro, de empadinhas de camarão, pasteizinhos e que tais. Tudo feito em casa; tudo feito pela Mamãe e a Tia Odete.


Ter uma mãe que tinha uma carreira profissional inculcou em mim desde cedo a idéia que mulher tem que estudar e trabalhar; ela dizia mesmo que a mulher não pode depender do marido. Depois da minha declaração aos seis anos de idade que já podia arrumar um emprego porque sabia assinar meu nome, aquela idéia se desenvolveu no meu interesse por escrever, que a Mamãe sempre apoiou, até porque ela também escreve: ganhou dois prêmios ano passado em concursos de jornais cariocas. Mais tarde, foi ela que botou na minha cabeça a idéia de eu fazer pós-graduação nos EUA. Quando eu tinha uns 11 anos, várias das minhas colegas estavam indo à recém-inaugurada Disneyworld. Eu também queria ir, mas a gente não tinha dinheiro pra isso nem de longe. Então, a Mamãe comentou que não ia ter graça ir lá naquele momento porque eu não falava inglês e não ia entender nada. Que tal aprender inglês primeiro e depois fazer mestrado nos EUA? Ela nos matriculou em cursos de inglês, ganhei prêmios de melhor aluna em todo o Rio de Janeiro de um certo curso e quando faltava um ano pra eu me formar na faculdade, fiquei sabendo do concurso da Encyclopaedia Britannica, que eu também ganhei e me permitiu vir pra cá e realizar aquele antigo sonho.


Era pra eu ter ficado só um ano, mas a vida aconteceu e continuo aqui. E por causa da minha vida aqui, não posso estar com ela no Rio no dia de hoje. Vai, então, o meu tributo, regado a lágrimas, à minha mãe amorosa e talentosa, enquanto conto os dias pra abraçá-la e beijá-la ao vivo.


Originalmente publicado no Facebook em 13 de maio de 2012.

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