• Vânia Penha-Lopes

DIA DOS PAIS


Eu e o Papai, sob "o maior cajueiro do mundo" (Natal, RN, 2010).


Publiquei a crônica abaixo no Facebook em 12 de agosto de 2012, que seria o penúltimo Dia dos Pais que comemoraria com o meu querido pai (1924-2013).


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Quando eu tinha meus três, quatro, cinco anos, ficava triste a ponto de chorar com aquela quadrinha popular que começava com “Eu sou pequenininha, do tamanho de um botão. Levo o Papai no bolso e a Mamãe no coração”. Achava tão triste o papai cair no chão porque o bolso furava! Por que, perguntava entre as minhas lágrimas, o papai não podia ser guardado no coração junto com a mamãe? Certamente, o meu próprio Papai me era tão caro quanto a minha Mamãe; pelo menos o meu pai não ia acabar no chão.


Aquela injustiça me marcou tanto que, tenho certeza, foi fundamental na minha decisão de estudar pais negros americanos na minha tese de doutorado, tantos anos depois. Tais como o pai da quadrinha, esses homens são escorraçados desde a escravidão como incapazes de cuidar de suas famílias. Quando me inteirei da literatura contemporânea até os anos 1990 e constatei que aquela opinião não havia mudado muito, resolvi entrevistar uma amostra daquela população. Isso porque meus modelos—meu avô, sobre o qual já escrevi aqui, meu padrinho, que era amigo do Papai desde garotos e co-cunhados e o meu próprio pai—foram sempre presentes, carinhosos e signficativos na minha vida. Como já escrevi, do Vovô peguei o gosto pelo exercício; do meu padrinho, Manuel, a satisfação de pôr uma mesa bem, com pratos bem decorados e os talheres nos seus devidos lugares; e do Papai, aprendi que “tudo é o detalhe”.

Eu adorava ficar junto com o Papai. Ele gostava de fazer caminhadas pelo bairro e eu gostava de acompanhá-lo. Muitas vezes me fascinei com o seu magnetismo: era só ele assobiar e qualquer cachorro ou gato vinha fazer festa; eu achava que ele tinha um dom natural, tipo uma versão benévola do flautista de Hamelin. Crianças também gostavam dele e orbitavam em torno dele, mas nisso eu achava bem menos graça. E o interessante é que ele nem fazia esforço pra atrair os seres vivos; ele simplesmente existia.


Quase todas as noites, antes de irmos dormir quando a Dilma e eu éramos menininhas, o Papai nos contava uma história à la Robinson Crusoé em que ele se via perdido numa floresta fria onde o vento cantava, mas ele sobrevivia por conseguir fazer uma fogueira “com dois gravetos” e dormir no quentinho. A história seguia um padrão, incluindo sonoplastia pro vento e os gravetos, mas a gente sempre se entretia e lhe perguntava o que sucedia. Em retrospecto, era o nosso ritual de ninar. E enquanto a gente não sabia ler, o Papai lia gibi pra gente. Ele também desenhava pra gente e, se era a Mamãe quem fazia os bolos gostosos, era o Papai que fazia pipoca e laranjada. Com o Manuel, ele levava a criançada à praia, ao Parque da Penha e ao Parque Ari Barroso. Ele também tinha a paciência de vir me tirar das árvores do quintal do Vovô, pois, ao contrário da minha irmã e dos meus primos, eu morria de medo de subir aos galhos mais altos, então só subia na goiabeira e na pitangueira, mas ainda assim chorava, com medo de cair.


A essa altura, alguns dos leitores devem estar se perguntando o que isso tem a ver com “detalhe”. Explico: o Papai nos ensinou a assobiar. Como a minha memória mais antiga vem de quando eu tinha menos de dois anos e meio, não me espantaria se nós fôssemos bem pequenas quando as “lições” começaram. O Papai assobiava super bem o tempo todo, então a gente queria fazer igual. Ele não tinha o menor problema em nos ensinar, mas a gente tinha que aprender direito. Lembro nitidamente de uma vez, eu, Dilma e Papai sentados na soleira da porta da frente, tentando imitar o assobio dele. Ele nos corrigia, dizendo que não podíamos “assobiar pra dentro”; tinha que ser pra fora. “Por que não? É tão mais fácil!” E ele disse que tínhamos que assobiar e respirar ao mesmo tempo; como íamos ficar sem respirar? A gente tentou argumentar que podia parar de vez em quando pra tomar fôlego, mas ele retrucou que não; não ia ficar bom. É claro que ele tinha razão! Tudo é o detalhe! Eu e a Dilma assobiamos o tempo todo, super bem, sem modéstia nenhuma, porque falsa modéstia é hipocrisia e, no fim das contas, o mérito é do Papai. É muito legal botar um CD do Burt Bacharach (que eu aprendi a apreciar com o Papai) e assobiar as músicas junto com ele.

O Papai é técnico de telecomunicações. Trabalhava na Agência Nacional e consertava TVs nas horas vagas. Comprou pra gente uma coleção de livros, “O Pequeno Cientista”, sobre astronomia e outros temas de física. Durante um tempo, eu dizia que ia estudar aquilo, mas ao oito anos, comecei a escrever e vi que essa era a minha paixão. Ainda assim, eu era CDF em todas as matérias. Uma vez no 1º grau, a professora de Desenho passou um trabalho sobre cores. O Papai deu a idéia de construirmos um painel de cores primária que, ao se acender, dava origem às cores secundárias e terciárias; acho que a professora nunca o devolveu. Antes, quando aprendi sobre o sistema solar na 5ª série, ele construiu um painel com os planetas girando em torno do Sol, com luzes diferentes para cada astro. Já no 2º. grau, tive um trabalho de grupo sobre o DNA, então o Papai sugeriu que reproduzíssemos uma molécula de DNA. Ele montou uma base de madeira, escolhemos as cores pras quatro enzimas (contas de plástico) e ele montou a dupla hélice com elas e com fios de cobre. Ficou show!

É preciso que se diga que o Papai, assim como o Manuel, veio de família humilde. Órfão de pai aos seis anos e com muitos irmãos (a Vovó teve 18 filhos e o meu avô ainda tinha uma filha mais velha de um casamento anterior), ele começou a trabalhar muito cedinho: fazendo carreto na feira, engraxando sapato, vendendo amendoim na rua, sendo ajudante de pedreiro. Quando ele tinha 14 anos, a Vovó o levou a um prédio em Copacabana (eles moravam em Laranjeiras) e pediu ao moço pra empregá-lo como porteiro. Papai ouvia música durante o ofício e foi-se ensinando inglês ao tentar tirar as letras; era auto-didata. Quando foi aos EUA em 1986, as pessoas perguntavam de que parte do país ele era, tamanha a qualidade da sua pronúncia.

Tudo é o detalhe, tanto quanto se aprende como quanto se ensina: cresci ouvindo o seu desdém por “professor livro na mão”, ou seja, aquele que só sábe dar aula lendo de um livro ou caderno. Não preciso nem dizer que esse não é o meu caso.

A crônica está se alongando, pois as memórias são muitas, como não poderia deixar de ser, porque o Papai marcou—e continua marcando—o meu jeito de ser. Tenho plena consciência de que sou privilegiada por ter sido criada por um homem tão especial e ainda por poder lhe dar um abraço e um beijo “ao vivo e a cores” hoje.


FELIZ DIA DOS PAIS PRO MEU PAPAI E PRA TODOS OS PAPAIS DA MINHA REDE!



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