• Vânia Penha-Lopes

MARVIN GAYE (2/4/1939-1/4/1984)


Lembro exatamente de onde estava quando ouvi que o “Príncipe da Motown” tinha sido baleado, naquele domigo trinta anos atrás.

Moradores do Village, eu e um casal de brasileiros estávamos indo “uptown” visitar uma conhecida. Quando entramos na estação de metrô, dirigimo-nos ao guichê pra comprar “tokens” (era a moeda que servia de entrada no metrô naquele mundo pré-virtual). O casal comprou seus tokens antes de mim. Quando dei meu dinheiro pro bilheteiro, ele me perguntou: “Você ouviu o que aconteceu?” “O quê?”, eu indaguei de volta, e ele respondeu: “O Marvin Gaye foi baleado na cabeça ainda há pouco pelo próprio pai”. Fiquei horrorizada, chocadíssima e perguntei: “Ele morreu?” E o rapaz respondeu que não sabia.

Saí da conversa tristíssima. O casal queria saber o que o bilheteiro tinha dito. Quando repeti a notícia, o amigo perguntou: “Quem é Marvin Gaye?” Aquilo me surpreendeu e me irritou. Como ele poderia não saber quem era Marvin Gaye? Nessa época, eu tinha pouco mais de um ano de vida nos EUA. Todo o meu conhecimento de música estrangeira contemporânea vinha do que eu tinha escutado no rádio, crescendo no Rio. Pelo que me constava, as estações de rádio cariocas não discriminavam as músicas em termos de raça, como ainda é feito aqui nos EUA. Se esse amigo, também carioca, conhecia Pink Floyd, Os Beatles e outros grupos estrangeiros brancos, por que não conhecia um cantor famosíssimo internacionalmente como o Marvin Gaye?! Como ele conseguiu ser ignorante sobre “What’s Goin’ On?”, “Mercy, Mercy Me” ou aqueles duetos famosos do Marvin Gaye com a Diana Ross? “Stop, Look, Listen” não tinha sido parte da trilha sonora do Jornal Hoje? (é verdade; nos anos 70, o Jornal Hoje começava com algum sucesso da música negra americana).

Outro fato me chamou a atenção: embora o bilheteiro tenha atendido aos meus amigos antes de mim, ele deu a notícia da tragédia pra mim, negra como ele. Imagino que ele tenha suposto que eu era fã; ele não poderia estar mais certo.

A viagem no metrô, a visita em uptown, nada afastou meu pensamento da notícia que eu havia ouvido, até porque ninguém mais entre os amigos se tocou. Tudo o que eu queria saber era se o Marvin Gaye ainda estava vivo.

Não me lembro se eu tinha TV ou não, mas lembro que, ao chegar em casa, peguei a lista telefônica (novamente, era um mundo mais concreto) e procurei por uma agência de notícias. Liguei pra uma delas. Perguntei ao rapaz que atendeu se ele tinha notícias do Marvin Gaye. Ele parecia estar lendo o próprio noticiário que seria publicado nos jornais no dia seguinte: “O cantor Marvin Gaye morreu hoje em Los Angeles de um tiro na cabeça desferido pelo seu próprio pai”. “Então é verdade”, falei, desesperançada. O rapaz foi muito gentil; vai ver ele também era fã do Marvin Gaye.

Não dormi direito naquela noite. Devo confessar que o assassinato do Marvin Gaye me chocou muito mais que a morte da Karen Carpenter no ano anterior, causada por “anorexia”, uma doença completamente nova pra mim. No dia seguinte, comprei o “New York Times”, no qual o assassinato estava estampado na primeira página, com uma foto do cantor. E dali, comprei tudo quanto foi revista com a matéria.

Foi então que aprendi que o nome real dele era Marvin Pentz Gay, Jr. (o Pentz era o sobrenome do obstetra que efetuou seu parto e o "e" ele acrescentou ao sobrenome por achar mais profissional); que ele tinha tido uma relação edipiana com os pais; que ele havia começado a cantar com três aninhos na igreja do seu pai, um pastor protestante, em Washington, D.C., e que já tocava piano com quatro anos; que, embora muito repressor, seu pai se travestia, o que muito envergonhava o menino Marvin; que o pai batia na mãe dele, o que levava a muitas brigas à medida que o cantor foi crescendo; que ele era maníaco-depressivo (o termo “bipolar” não tinha emergido ainda); como tal, chegado a extremos, ele se casou pela primeira vez com uma mulher 17 anos mais velha que ele (Anna Gordy, a irmã do fundador da Motown) e, pela segunda vez, com uma mulher 17 anos mais nova que ele; que várias músicas dele eram autobiográficas, e.g., o verso “Father, father, we don’t need to escalate”, em “What’s Goin’ On” e “Let’s Get It On”, que ele escreveu para a Janis Hunter, que viria a ser a sua segunda mulher, quando ela tinha 17 anos, e também “You Sure Love To Ball” and “Get To This”, todas do mesmo disco, e que "Got To Give It Up" tinha a ver com a timidez que o fazia ter vergonha de dançar; que o Berry Gordy vetou “What’s Goin’On” quando a ouviu pela primeira vez porque era “revolucionária” demais e, portanto, não se enquadrava no estilo da Motown, mas o Marvin insistiu e a música fez aquele sucesso todo; que “What’s Goin’ On” revolucionou o mundo da música porque nela o cantor fazia coro com ele mesmo, uma profusão de vozes melífluas vindas das mesmas abençoadas cordas vocais; e, finalmente, li que ele era viciado em cocaína e, no seu último fim de semana, ele estava drogado e passando por uma fase maníaca. Ele estava morando com os pais e passou o fim de semana sem dormir, com um revólver na mão, ameaçando se suicidar. E aí foi que, num certo momento, o pai tirou-lhe o revólver da mão e o matou. O pai foi preso, mas logo descobriu-se que ele tinha um tumor cerebral do tamanho de uma bola de golfe. Se a minha memória não me falha, ele passou pouco tempo preso e morreu não muito tempo depois.

Depois da morte de Marvin Gaye, comprei várias fitas cassete, seguidas por CDs, e me tornei uma fã muito mais conhecedora de sua obra; antes tarde do que nunca.

Continuo sua fã incondicional e é por isso que deixo aqui o meu tributo, seguido de algumas pérolas do seu cancioneiro. E como amanhã teria sido o seu septuagésimo-quinto aniversário, continuarei postando músicas dele, porque é impossível se cansar da genialidade e da perfeição da sua voz.


Originalmente publicado em 1 de abril de 2014.

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